O ônus e o bônus

30/03/2026 por Luiz Gavioli

É estranho chegar aos 40. Por muito tempo eu sempre era mais novo. Mais novo que a maioria dos atores famosos, mais novo do que as pessoas com quem eu trbalhava. Mais novo do que o barbeiro… Aos 30 eu comecei a ter a mesma idade. Atores famosos, colegas de trabalho, etc. E, agora, aos 40, sou mais velho. Melhor, tenho mais idade, mais experiência. Vamos pensar positivo e esquecer do cansaço e das dores. Da vontade de gritar, da vontade de fugir e da sensação de que você agora tem menos tempo para viver do que tempo vivido. A sensação de que a morte está te esperando ali na esquina. E esquecer também da dor do tempo desperdiçado.

Aos 40 começamos a questionar todas as decisões que tomamos nos últimos 20 anos. E analisamos os resultados. Chamam de crise da meia-idade. E eu demorei para entender o que era meia-idade. A expectativa de vida atual ronda os 80 anos, um pouco mais ou um pouco menos. Por isso, meia-idade. Eu comecei a crise aos 36 e é engraçado como quase tudo deixou de fazer sentido e tive que buscar novos sentidos e novos objetivos. Depois de 20 anos de carreira, onde progredi muito pouco, tenho pouco para apresentar. Tive muitos empregos e não cheguei muito longe. No entanto, nesse tempo eu também sustentei minha família e criei os meus filhos. O mais velho tem 18 anos, o mais novo 13. Pelas pessoas que eles são, acredito que fiz um bom trabalho, mas isso ainda é cedo para dizer. Me dediquei a eles mais do que à minha carreira.

E agora, que eles já estão “crescidos”? Vou me dedicar totalmente à minha carreira? Não vou, não quero, não acredito nisso. Quero paz e tranquilidade. Quero sossego. Quero pintar. Quero escrever. Quero fazer menos, cada vez menos. E quero ter menos também. O carro, sempre foi um símbolo de liberdade e de conquista, agora me irrita e parece mais uma obrigação do que liberdade. Revisões, trocas de consumíveis, manutenções e a preocupação constante com o preço do combustível. Aí você me diz: “Troca por um elétrico.” E eu te respondo: “Não, obrigado.” Não quero mais pagar prestação, revisão, óleo, pneu, pastilha de freio, bomba de ABS, limpeza dos bicos injetores e do filtro de partículas. Quero viajar, entende?

Passei 20 anos arcando com o ônus, esperando o bônus chegar. Será que existe um bônus? Ou nossa sociedade como um todo transferiu todos os bônus para os bilionários? Ficamos à míngua, esperando uma recompensa. Uma aposentadoria cada vez mais distante e com prognóstico cada vez pior. Trabalhar mais 30 anos para, talvez, aposentar para receber o justo ou trabalhar mais 20 e ganhar o mínimo? Isso lhe parece ser uma troca justa? Vou trabalhar até morrer, já sei disso. Mas quero escolher o trabalho, quero algo gostoso de fazer. Para ter pelo menos o gosto, um bônus parcial.